O que é Abuso Espiritual?
- Gabriel Perissé

- 22 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Abuso espiritual é todo abuso de poder praticado em espaços religiosos por indivíduos que se prevalecem de seu cargo ou autoridade para obter vantagens pessoais ou institucionais.
A prática do abuso espiritual é muito mais comum do que se imagina. E pode ocorrer em igrejas, comunidades de fé, fraternidades, movimentos eclesiais, congregações, ministérios, pastorais, grupos de oração, colégios confessionais, círculos esotéricos etc.
Sob o guarda-chuva do abuso espiritual são cometidos inúmeros outros abusos, como:
- abuso físico e sexual;
- financeiro;
- trabalhista e patrimonial;
- de consciência;
- emocional, deixando um rastro de frustração, medo e culpa.
Muitas vítimas de abuso religioso relatam diferentes histórias de grande sofrimento, cujo roteiro obedece a um padrão: a crença em Deus, que deveria ser fonte de paz e alegria, torna-se instrumento de manipulação nas mãos de predadores espirituais que exibem uma aura de enganosa santidade.
Como identificar o abuso espiritual?
Um dos sinais de abuso espiritual é a instrumentalização da fé e da confiança. O que deveria ser uma relação de respeito mútuo entre a liderança religiosa e a pessoa que busca orientação transforma-se em controle obsessivo por parte do abusador, e submissão obrigatória por parte da vítima.
O abusador espiritual afirma possuir uma infalibilidade divina que jamais poderá ser questionada. A vítima do abusador religioso lhe deve obediência cega e incondicional. O medo é uma das principais algemas que limitam e oprimem a vítima, como:
1- medo do castigo eterno;
2- medo de ser expulso do grupo abusivo
3- medo de ser amaldiçoado etc.
Outros sinais são:
• pressão contínua por doações financeiras;
• invasão da intimidade pessoal;
• imposição de regras rígidas de comportamento;
• afastamento da família e dos amigos.
Se a sua liberdade de consciência está sendo cerceada “em nome de Deus”, trata-se claramente de abuso espiritual.
Como o abuso espiritual afeta a identidade
O impacto na identidade é profundamente destrutivo. O abuso espiritual atinge o âmago da alma, controlando a vítima em questões que vão muito além do âmbito da crença religiosa. A vida afetiva, a vida familiar, as opções profissionais, o uso do tempo, toda a existência da pessoa vai sendo determinada e dominada pela vontade do abusador ou da instituição abusiva.
A vítima sente-se condenada a não ser quem é, e induzida (sempre “em nome de Deus”) a ser o que o abusador quer que ela seja. A vítima perde a espontaneidade, perde a autoestima, e, pior de tudo, corre o risco de perder o sentido da vida.
Compelida a abrir mão de sua liberdade, a vítima não se reconhece mais como uma pessoa capaz de se relacionar com Deus, pois o próprio Deus passa a ser visto como um abusador. A alma está em carne viva. Sua saúde mental e espiritual encontra-se seriamente comprometida e requer uma terapia adequada.
Como funciona a terapia para trauma religioso?
A terapia para o trauma religioso e o abuso espiritual deve ser, antes de mais nada, empática e respeitosa, reconhecendo que as feridas de uma alma afetam todas as dimensões da existência, tanto no campo propriamente psíquico e espiritual, quanto no campo afetivo e relacional.
O primeiro passo consiste em compreender os fatos que levaram ao sofrimento psíquico, bem como identificar até que ponto a “voz do abusador” continua presente e atuante. Cumprida essa etapa inicial, é fundamental aprofundar no autoconhecimento, e adotar novas atitudes para a recuperação da saúde emocional, mental e espiritual.
O principal objetivo de
um adequado acompanhamento terapêutico para abuso e trauma religioso consiste na reintegração da totalidade psíquica, tendo em vista, além da superação do trauma, a busca de uma espiritualidade saudável e de uma renovada confiança na vida.
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